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Eleições/EUA: Democratas apostam em frente ampla e estratégia digital contra extrema direita
Eleições/EUA: Democratas apostam em frente ampla e estratégia digital contra extrema direita · Imagem: Source: oglobo.globo.com

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Análises, entrevistas e notícias sobre a segunda temporada de Trump na Casa Branca

O progressista Abdul El-Sayed, que busca ser o primeiro senador de origem árabe dos EUA, faz sucesso com sua camisa preta no Michigan — Foto: CHIP SOMODEVILLA/Getty Images via AFP
O progressista Abdul El-Sayed, que busca ser o primeiro senador de origem árabe dos EUA, faz sucesso com sua camisa preta no Michigan — Foto: CHIP SOMODEVILLA/Getty Images via AFP · Imagem: O progressista Abdul El-Sayed, que busca ser o primeiro senador de origem árabe dos EUA, faz sucesso com sua camisa preta no Michigan — Foto: CHIP SOMODEVILLA/Getty Images via AFP

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Inspirada em campanha vitoriosa de Zohran Mamdani em Nova York, nova geração de candidatos da oposição, com pluralidade ideológica, aparece à frente nas pesquisas para o Senado e executivos estaduais na América Profunda

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Líder nas pesquisas para o governo de Iowa, Rob Sand defende a importância de ampliar a tenda democrata à direita para enfrentar as ameaças à democracia da extrema direita — Foto: SCOTT OLSON/Getty Images via AFP
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O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, celebra a vitória, nas prévias democratas, de Darializa Chevalier, novata que recebeu seu apoio para a Câmara no pleito de novembro — Foto: Lexi Parra/The New York Times

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Em vídeos com mais de 15 milhões de visualizações, James Talarico, de 37 anos, enumera de forma lúdica políticas públicas do Partido Republicano. Seminarista presbiteriano, as traduz como anticristãs. Abdul El-Sayed, 41, mergulhou na dinâmica da economia da atenção. O médico não vê mais as redes sociais como megafone e sim “bairros, pontos de encontro com os eleitores”. Em dia com a academia, aparece nas postagens com camisa de malha preta cavada, o que levou as comentaristas da conservadora Fox News a reconhecer: “Pode-se discordar das ideias, mas como é bom de se olhar”. Após receber o apelido de “Meu Crush”, Jon Ossoff, 39, multiplicou o uso de um efeito de câmera, apelidado de “ângulo Obama”, que beneficia sua boa-pinta. Entusiasta da caça esportiva e auditor estadual, Rob Sand, 43, adotou o mote “nem vermelho, nem azul, apenas verdadeiro”. Dá de ombros às cores dos partidos e mira na autenticidade.

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Distantes na ideologia, os quatro candidatos a cargos majoritários no pleito de meio de mandato, que ocorre em duas semanas nos EUA, ilustram a renovação do Partido Democrata. À frente nas pesquisas em estados mais conservadores, suas campanhas têm sido observadas por estudiosos e políticos do flanco progressista dedicados a derrotar, nas urnas, o extremismo à direita. Inclusive do Brasil.

A energia da renovação

Distantes na ideologia, os quatro candidatos a cargos majoritários no pleito de meio de mandato, que ocorre em duas semanas nos EUA, ilustram a renovação do Partido Democrata. À frente nas pesquisas em estados mais conservadores, suas campanhas têm sido observadas por estudiosos e políticos do flanco progressista dedicados a derrotar, nas urnas, o extremismo à direita. Inclusive do Brasil.

Pesquisas e modelos estatísticos mostram que, se as eleições fossem hoje, o Partido Democrata conquistaria maioria na Câmara. A sigla também é favorita para ter mais cadeiras na Casa Alta do Capitólio. No agregador Real Clear Politics, que pende à direita, Talarico, El-Sayed e Ossoff aparecem à frente nas disputas ao Senado, respectivamente, em Texas, Michigan e Geórgia. Sand, por sua vez, lidera para o governo de Iowa. O fenômeno se repete nas fortalezas conservadoras de Carolina do Norte, Alasca, Ohio e até no Kansas, onde os republicanos não perdem para o Senado há um século.

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Nos estados mencionados, com exceção de Geórgia e Michigan, vencidos por diferença estreita, Donald Trump abriu em 2024 dois dígitos de margem sobre a então vice-presidente Kamala Harris. Há motivações regionais para cada peleja e ao menos um combustível em comum, a insatisfação recorde com o Trump 2.0, potencializada pela guerra ao Irã e suas sequelas. Mas já é possível, apontam observadores da ascensão da direita radical, dentro e fora dos EUA, encontrar padrões nas campanhas da oposição neste ciclo eleitoral. Mesmo se os democratas não chegarem à frente em todas as disputas, elas oferecem pistas para se disputar melhor a opinião pública, inclusive em áreas dominadas há uma década pelo Faça os EUA Grandes Novamente, Maga na sigla em inglês.

Autor, ao lado de Daniel Ziblatt, de “Como as democracias morrem” e “Como salvar a democracia”, o cientista político Steven Levitsky constata que, na esfera ocidental, a social-democracia na Europa e o liberalismo nos EUA se tornaram “vítimas de seu próprio sucesso”. Após a implantação da maioria de suas pautas, passaram a ser identificados como expressões do status quo, alvo das insatisfações potencializadas pela lógica tribal das redes sociais, materializadas na denúncia da globalização e da imigração, e nas narrativas da opressão às liberdades individuais e privilégio das elites.

— A única força que mobilizou eleitores com alternativa ao já implantado foi a extrema direita. Embora tenha demorado a reagir e careça de projeto e nome claros para a sucessão de Trump em 2028, o Partido Democrata se aproveitou da vantagem do bipartidarismo americano. É mais fácil aqui do que em sistemas mais fragmentados, como o brasileiro, se apresentar como uma frente ampla e derrotar o extremismo. A saída foi pensar na sigla como um pássaro, que precisa das duas asas, a direita e a esquerda, para voar — afirmou Levitsky ao GLOBO.

O progressista Abdul El-Sayed, que busca ser o primeiro senador de origem árabe dos EUA, faz sucesso com sua camisa preta no Michigan — Foto: CHIP SOMODEVILLA/Getty Images via AFP

Esperança nas redes

No Brasil, o avanço do bolsonarismo nas eleições deste mês apressou o anúncio da criação do Instituto Memórias e Futuros (IMF), primeira organização acadêmica do país dedicada a estudar e enfrentar o extremismo. Com sede em São Paulo, é financiada por grupos de fomento, entre eles o Instituto Galo da Manhã e a Associação Paideia. O historiador Michel Gherman está à frente da iniciativa.

— Não foram fascistas que elegeram os fascistas, não foram os nazistas que elegeram Hitler. Há um processo de letramento das pessoas. Precisamos conversar com elas — afirma o professor da UFRJ e pesquisador da Universidade de Jerusalém.

- Política americana? Leia mais posts no blog Trump 2.0

Gherman aponta medidas imediatas de contraposição ao avanço da extrema direita, a começar justamente pelas frentes amplas.

— Acompanhadas de um projeto de futuro mais atraente do que o da nostalgia ressentida do outro lado e da disputa pelas subjetividades nas ruas, em todos os cantos, sem cansaço. Ao mesmo tempo, investir em um letramento da esperança para as redes sociais, oposto à gramática das teorias conspiratórias da extrema direita — diz Gherman.

Professor da Universidade da Virgínia e especialista em estudos de mídia, David Nemer afirma não haver caminho possível para a disputa sem, ainda que pareça anacrônico, investimento pesado dos setores progressistas nas redes sociais devidamente criticadas por distorcer o debate público.

— É um looping desagradável, pois joga-se mais dinheiro nas big tech. Mas, mesmo com o sigilo do código dos algoritmos, que beneficiam o discurso de ódio, é necessário e, está provado, possível, brigar de dentro – afirma.

Líder nas pesquisas para o governo de Iowa, Rob Sand defende a importância de ampliar a tenda democrata à direita para enfrentar as ameaças à democracia da extrema direita — Foto: SCOTT OLSON/Getty Images via AFP

Exemplos práticos, aponta Nemer, são a vitoriosa campanha de Zohran Mamdani em Nova York e as mudanças implantadas no segundo turno na campanha do PT.

— Há muito o trumpismo e o bolsonarismo entenderam que é preciso seguir em estado de campanha permanente. No caso da extrema direita, o inimigo é mantido vivo como forma de capital político. Mas é possível ocupar as redes, como Mamdani e as campanhas democratas de meio de mandato atestam, sem ódio e crueldade — afirma.

‘A Matriz de tudo'

Nos EUA, a campanha de Mamdani recebeu da militância democrata jovem o epíteto de “a matriz de tudo”. Especialmente pelo investimento nas redes sociais, com brechas encontradas nos algoritmos para aumentar o alcance e o engajamento das ações dos candidatos, seguidas agora por Talarico, El-Sayed, Ossoff e Sand.

— Os democratas rejuvenesceram, com candidatos, entre eles estes quatro, na faixa dos 30 aos 50 anos. A sigla pagou o preço da crucial defesa de instituições seculares quando comandada pelo octogenário Joe Biden. Agora, a união da base urbana com nomes novos na América Profunda indica um caminho a ser observado com atenção — afirma ao GLOBO Feliciano de Sá Guimarães, editor-chefe da CEBRI-Revista e professor da USP.

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